Liderança Inclusiva

Quando somos o alvo: como líderes inclusivos podem se curar, crescer e continuar liderando após a exclusão

Costumamos falar sobre como denunciar a exclusão quando a vemos acontecer com outra pessoa. Mas o que acontece quando acontece conosco?

Até mesmo líderes inclusivos experientes podem se ver diante de um comentário inapropriado, uma piada de desdém ou uma exclusão total. E quando isso acontece, o impacto é diferente. Não estamos apenas gerenciando o momento — estamos gerenciando as consequências emocionais, nosso papel público e a expectativa de "liderar através dele".“

A verdade é que ser alvo de críticas como líder pode ser incrivelmente isolado. Espera-se que você mantenha a compostura, lidere com elegância e seja um modelo de comportamento inclusivo — tudo isso enquanto lida com a dor de ser prejudicado ou desrespeitado. Aquela tensão entre o que se espera de nós e o que realmente sentimos? Pode ser avassaladora.

A psicóloga e artista portuguesa Grada Kilomba expressou isso de forma contundente: “O racismo é uma experiência traumática à qual, às vezes, a única resposta possível é o choque.” E isso se aplica a muitas formas de exclusão. Às vezes, tudo o que podemos fazer é reconhecer que estamos em choque. E nos dar permissão para simplesmente parar e processar.

O que acontece quando somos atingidos pela exclusão

Quando somos pegos de surpresa por um comportamento excludente, nosso sistema nervoso frequentemente entra em alerta máximo. Podemos nos sentir congelados, inundados de emoção ou presos na dúvida. Será que isso realmente aconteceu? Estou exagerando? Por que não disse nada?

E como somos líderes, a pressão para "lidar bem com a situação" pode parecer implacável. Carregamos esse fardo invisível de permanecer calmos, serenos e racionais — enquanto, por dentro, podemos estar magoados, com raiva, confusos ou profundamente decepcionados.

É por isso que precisamos parar de tratar as respostas emocionais como fraquezas. Elas são humanas. E são válidas.

Falar não é se fazer de vítima. É liderança.

Existe um mito prejudicial circulando de que, ao falar sobre danos, você está, de alguma forma, "se fazendo de vítima". Sejamos claros: ser vítima de comportamento excludente é uma realidade factual — não uma mentalidade. Quando alguém nos exclui, zomba ou nos menospreza, estamos sofrendo danos. E nomear isso é um ato de coragem, não de fraqueza.

No entanto, muitas vezes, líderes que se manifestam são recebidos com descaso ou gaslighting. "Não leve para o lado pessoal." "Você está exagerando." Ou pior: "Não se faça de vítima." Essas reações silenciam. Elas desviam o foco. E reforçam a própria cultura que estamos tentando mudar.

Ironicamente, aqueles de grupos dominantes que são questionados por seu próprio comportamento excludente podem rapidamente inverter o roteiro e alegar que são eles os vitimizados. É um mecanismo de defesa. Como Samah Karaki sabiamente observa: "Os homens se tornam vítimas do sexismo, os colonizadores da ocupação e os brancos do racismo". Essa inversão de papéis torna ainda mais difícil que as vítimas reais sejam ouvidas e levadas a sério.

Então, como cuidamos de nós mesmos quando somos o alvo?

Deixe-me dizer isso claramente: você não deve uma reação imediata a ninguém. Você tem o direito de dar um tempo. De respirar. De proteger sua energia.

Às vezes, não é seguro confrontar o comportamento imediatamente. Às vezes, simplesmente não temos a capacidade necessária. Tudo bem. Você pode escolher quando e como reagir — e se reagirá ou não. Isso não é evasão. É sabedoria.

Processar o que aconteceu é um primeiro passo vital. Converse com alguém de confiança. Anote. Reconheça o impacto. Não o guarde.

Quando estiver pronto para responder, há muitas maneiras de fazê-lo. Você pode optar por uma conversa privada. Você pode redirecionar a discussão para o momento. Você pode recorrer a canais formais. Ou pode pedir a intervenção de um colega de confiança. O segredo é: você escolhe o que é certo para você.

E, enquanto você se recupera, certifique-se de estar cercado de apoio — tanto pessoal quanto profissional. Conte com amigos, familiares, terapeutas, mentores ou colegas de confiança. Conecte-se a redes que entendam a inclusão. Lembre-se: você não precisa passar por isso sozinho.

Minha Própria História

Anos atrás, enquanto trabalhava na França, tive uma experiência profundamente desconfortável com um colega. Diante de uma sala cheia de pessoas — incluindo meu gerente —, ele me deu um beijo na boca. Todos riram. Até as mulheres. Fiquei chocada. Sorri sem jeito e saí da sala, sem entender o que tinha acabado de acontecer.

Ninguém disse nada. Ninguém fez check-in. E eu me senti envergonhada — como se tivesse me decepcionado por não reagir.

Olhando para trás, entendo agora que o choque é normal. Que o silêncio de espectadores pode ser tão doloroso quanto o ato original. Que nem sempre sabemos o que fazer no momento — e isso não nos torna fracos. Nos torna humanos.

Hoje, lidero de forma diferente. Reajo de forma diferente. E tento criar ambientes onde ninguém mais tenha que passar por esse tipo de momento sozinho.

Transformando a Dor

Vivenciar a exclusão como líder pode abalar sua confiança. Você pode se sentir desconectado da equipe. Menos motivado. Emocionalmente esgotado. Preocupado que se manifestar possa prejudicar sua carreira.

Mas, com o tempo, muitos líderes inclusivos descobrem algo poderoso: a própria experiência que nos magoou também pode nos tornar mais empáticos, mais resilientes, mais comprometidos. Pode aprofundar nossa liderança, não diminuí-la.

Nos tornamos melhores ouvintes. Nos tornamos defensores mais corajosos. Falamos com mais autenticidade. Lideramos com mais coração.

Cuide de você

Autocuidado não é um luxo — é uma estratégia de liderança. Então, cuide de si mesmo. Movimente seu corpo. Descanse. Reflita. Registre em um diário. Medite. Reconecte-se com o que lhe dá propósito e força.

Acima de tudo, trate-se com a mesma gentileza e compaixão que você ofereceria a alguém de quem gosta.

Porque você importa. Sua liderança importa. E sua história — por mais dolorosa que seja — faz parte de uma jornada muito maior.

Seguindo em frente com intenção

Você não precisa esquecer o que aconteceu. Mas você pode escolher como lidar com isso. Você pode decidir estabelecer limites mais firmes. Orientar outras pessoas. Defender melhores políticas no ambiente de trabalho. Liderar pelo exemplo, mesmo quando for difícil.

Essa escolha — sua escolha — é onde reside seu poder.

Ao modelar maneiras saudáveis de responder à exclusão, você não se cura apenas. Você mostra aos outros que eles também podem sobreviver. Você cria espaço para que outros se manifestem. Você constrói culturas que realmente transformam.

E é assim, meu caro líder, que não apenas sobrevivemos à exclusão, mas também lideramos através dela.

Obrigado pela leitura. Deixe sua opinião nos comentários.

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